Ode ao Ctrl + Z

Agosto de 2016


Era meu quinto semestre da graduação em Artes Visuais na Unesp. As aulas do período matutino começavam às oito, mas havia um acordo tácito entre professores e alunos de que ambos só começariam a entrar na sala de aula uns trinta minutos depois. 


Às quintas-feiras eu cursava uma disciplina obrigatória chamada Técnicas de Reprodução, ministrada por um professor que, diferentemente do resto do instituto, era um ferrenho defensor da pontualidade: depois de fazer a chamada e dar falta para 80% dos alunos às 8h05 da manhã, ele começava a declamar um de seus sermões intermináveis sobre a necessidade de rigidez, disciplina e trabalho duro no mundo da arte. 

Papel vegetal usado pra transferir as linhas para o cobre. Todo desenho gravado na placa precisa ser invertido pra que apareça do lado certo na impressão.


Quando acabavam os discursos (ufa!), vinham as aulas propriamente ditas (que não eram tão melhores assim). Nelas, aprendi a polir cobre com lixa d’água, a desenhar no metal, a usar verniz, a aquecer o breu, a proteger minhas mãos da ação corrosiva do ácido, a mergulhar meu papel numa piscina de água antes de levá-lo para a prensa.


No fim do ano letivo, a combinação entre professor chatonildo, técnica meticulosa e cheiro de produtos químicos no ambiente me levara a detestar gravura. Apresentei meu trabalho final aliviada, enquanto escutava um sermão derradeiro sobre minha falta de dedicação.   

Trabalho final de Técnicas de Reprodução, que está pendurado na parede da minha sala.

Setembro de 2021


O sermão tinha a ver com o fato de que meu trabalho ficara incompleto. No projeto de “A chuva”, três gravuras diferentes seriam impressas num papel A3, compondo uma narrativa. Infelizmente, naquela época eu só tinha conseguido terminar duas delas. Mas isso me incomodava: nos anos que se seguiram, figurou na minha lista de tarefas o item “Gravar placa que ficou faltando e fazer impressões”.

No projeto, eu anotei “multidão”, mas não cheguei a terminar o desenho que seria gravado na segunda placa.


Recentemente, a tarefa fez aniversário: estava há cinco anos relegada ao esquecimento no aplicativo que uso pra organizar projetos. Então, decidi que era tempo de me conformar e admitir que eu nunca mais voltaria ao ateliê de gravura. Foi assim que tive a ideia de trocar de técnica e usar a pintura digital. Sem muito planejamento, criei um arquivo no Ipad. Duas tardes e 1.925 traços desfeitos depois, eu experimentava a maravilhosa sensação de cumprir uma tarefa jurássica sem ter precisado tocar numa única gota de ácido. Viva a tecnologia e viva o Ctrl + Z!

One Reply to “Ode ao Ctrl + Z”

  1. Você é sensacional! Adorei o post 🙂

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