Piquenique com Jimmy Cliff

Todas as vezes em que precisei tomar alguma grande decisão na vida, passei um tempo considerável vivenciando cenários hipotéticos, perdida numa enrolação que durou meses a fio até acabar tomando a decisão que, no fundo, já sabia que tomaria desde o princípio. Assim, passei a quarentena inteirinha cogitando a possibilidade de adotar um cachorro, mas só decidi fazê-lo de fato quando a pandemia começou a dar sinais de arrefecimento, em maio de 2021.


Depois de uma experiência meio traumática numa feira de adoção (sempre que eu começava a me afeiçoar a um cachorro ele era logo levado embora por um ser humano afoito), comecei a vasculhar sites, grupos de Facebook e contas do Instagram que divulgavam animais à procura de um lar. Essas páginas funcionam como uma espécie de Tinder dos pets: cada perfil conta com algumas fotografias em vários ângulos diferentes do bicho em questão (pode ser cachorro, gato ou passarinho), além de um breve relato sobre seu temperamento, sua história de abandono, seu tamanho, sua idade estimada, seus gostos e fobias.     

Numa das minhas longas tardes de buscas, acabei me encantando pelo equivalente canino de um cantor de reggae que, não à toa, tinha o nome de Jimmy Cliff.  A expressão de Jimmy e a sua pelagem descabelada me pareciam muito familiares – era como se eu já o tivesse visto por aí. É esse, pensei, e escrevi uma mensagem para o e-mail indicado no anúncio.

Alguns dias depois, fui conhecê-lo. Jimmy Cliff veio me receber com uma alegre lambida no portão e assim conquistou minha simpatia. Como você é grande, pensei: bem maior do que eu tinha imaginado. Depois, vim a saber que ele pesava 6 quilos a mais do que os 18 indicados no anúncio; provavelmente havia crescido desde a última vez que subira numa balança. Jimmy e seu irmão Peter Pan (também adotado naquele mesmo dia) tinham em torno de dois anos de idade. Os dois haviam sido resgatados da beira de uma estrada de Sorocaba em setembro de 2020 pela Marisa, que naquela tarde me deu uma carteirinha de vacinação, um saco de ração e muitas dicas úteis de cuidados.

Sketchbook antigo: qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

Jimmy Cliff virou Milu, em homenagem ao Fox Terrier do Tintim, personagem dos quadrinhos do Hergé. Milu precisou se adaptar ao espaço restrito do meu apartamento e aos barulhos e cheiros do centro de São Paulo, muito diferentes daqueles com os quais estava acostumado a conviver no interior. Hoje, depois de três meses na metrópole, ele já não tem medo de elevador ou de portão automático, mas continua detestando ônibus e caminhão.


Apesar da sua fobia por avenidas movimentadas, Milu adora explorar a cidade e faz festa pra qualquer ser vivo que cruza o seu caminho, à exceção de gatos e de passarinhos. Quase todo dia, num dos nossos muitos passeios diários, alguém olha pra ele, abre um sorriso e me diz: o seu cachorro é igualzinho ao daquele filme. Aquele filme, depois eu entendi, são muitos e não é nenhum em específico. A verdade é que o Milu tem cara de vira-lata aventureiro genérico de filme da sessão da tarde.

Atrações televisivas estreladas por cães iguaizinhos ao Milu, segundo a vizinhança da Santa Cecília.

E os dias com ele se parecem mesmo com um longa-metragem dublado de roteiro previsível que passa na TV depois do almoço. É um pouco como se eu estivesse sempre numa cena ambientada em cima da minha casa na árvore e fizesse um piquenique com meus amigos de oito anos. Deitado no chão de madeira está um cachorro atento às mãos da criança mais desatenta, que segura um sanduíche prestes a cair.


Obrigada por isso, Milu.

6 Replies to “Piquenique com Jimmy Cliff”

  1. Marisa Morgese Bastos says:

    Amei seu relato sobre o Milu!
    Só posso te agradecer por amá-lo e por permitir que ele faça parte da sua vida!
    Eu vou sempre amar esse menino carinhoso, feliz, de bem com a vida!
    Ele com certeza já fazia parte da sua vida, era questão de tempo para se reencontrarem !!!

  2. Fernando Motta says:

    Adorei !!!!!!!!!

  3. Adriana says:

    Bi, adorei o texto. O Milu é especial!!!💜💜💜

  4. Fabricio says:

    Só responder aos stories é pouco pra demonstrar o que sinto, vou ter que comentar aqui também: te amo Milu! Já te amava quando era só Milu, mas agora que descobri que antes disso você era o Jimmy Cliff, tô mais apaixonado ainda!
    E parabéns a ti, Gabriela. Tu tens uma sensibilidade invejável, seja com as mãos ou as palavras! 🙂

  5. Pedro Souza says:

    Muito surreal você ter ido até Sorocaba só pelo Milu. Essa história deixa a relação de vocês muito mais fofa!

  6. eu te amo, amiga ❤️ não vejo a hora de esmagar o Milu!

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