Dicotomias em meio aquático

Hoje é domingo e eu decidi vir passar a tarde tomando sol na piscina do Sesc 24 de Maio. Essa unidade do Sesc fica no centro da cidade de São Paulo, perto da Praça da República, e é resultado do projeto de reforma de um imóvel anteriormente ocupado por uma antiga loja de departamentos, assinado por Paulo Mendes da Rocha.

Piscina do Sesc 24 de maio em São Paulo. Fonte: Sesc São Paulo

A piscina fica na cobertura do edifício. Eu me sinto bem quando venho para cá, porque acho muito louvável que um projeto arquitetônico atue como um convite ao lazer no centro de uma cidade insuportavelmente movida pelo trabalho. Mas tenho uma sensação esquisita ao olhar em volta e constatar que estou rodeada por inúmeras sobreposições de camadas de prédios sobre prédios: aqui, não consigo ignorar, nem por um instante, o fato de que estou em São Paulo.

1.1    Frio e calor

O livro que escolhi para ler neste dia ensolarado, estendida à borda da piscina, é Swimming Studies, de Leanne Chapton. A autora, que além de escritora é artista visual, praticou nado competitivo durante sua infância e adolescência e por muito pouco não participou das Olimpíadas. A disciplina e a persistência de Leanne foram importantes para que ela conseguisse frequentar as piscinas comunitárias do subúrbio de Toronto mesmo nos dias mais gelados do ano. Em Toronto faz tanto frio que, numa das cenas do livro, ao voltar para casa com sua mãe depois do treino numa tarde de inverno, Leanne descreve como uma mecha de seus cabelos molhados congela ao ficar encostada por alguns minutos no vidro da janela do carro. 

Assim como Leanne, Lynne Cox é atleta e escritora, e os relatos de suas impressionantes conquistas estão no livro Swimming to Antarctica. Lynne foi a primeira nadadora de longa distância a cruzar o estreito de Bering e quebrou, durante a adolescência, os recordes feminino e masculino de travessia do Canal da Mancha, percorrendo um total de 43 quilômetros em nove horas e cinquenta e sete minutos. Também nadou pelo Cabo da Boa Esperança, pelo Estreito de Magalhães, e foi a primeira pessoa a percorrer quase dois quilômetros do mar gelado da Antártica vestindo um simples maiô. A leitura do livro é muito prazerosa porque traz a descrição das sensações arrebatadoras advindas de um estado inimaginável de exaustão física e de momentos tão inusitados quanto exóticos. No capítulo que narra o episódio da Antártica, por exemplo, Lynne descreve como é ter o corpo submerso na água a 0ºC:

Meus braços e pernas estavam tão frios quanto o mar, mas senti o calor contido na minha cabeça e no meu torso e fiquei emocionada, sabendo que meu corpo me levara a lugares onde ninguém mais havia estado usando somente um maiô. Olhei para a água; era de um azul-acinzentado brilhante e tão claro que parecia que eu estava nadando no ar. A viscosidade da água também era diferente. Era mais espessa do que qualquer outra na qual eu já havia nadado. Senti como se estivesse nadando através de um gelato. 1Tradução nossa. Texto original da página 354: “My arms and legs were as cold as the sea, but I felt the heat within my head and contained in my torso and I thrilled to it, knowing my body had carried me to places no one else had been in only a bathing suit. I looked down into the water; it was a bright blue-gray and so clear that it appeared as if I were swimming through air. The viscosity of the water was different, too. It was thicker than any I had ever swum in. If felt like I was swimming through gelato”.

Lynne Cox nadando na Antártica. Foto de Gabriela Minotto. Fonte: site da Revista Piauí

Num outro capítulo, ela conta que estava treinando a céu aberto, num dia de muita ventania, quando seus colegas se aglomeraram na borda da piscina e insistiram para que o treinador interrompesse o treino, afirmando que sentiam muito frio. Ele acabou sucumbindo aos pedidos e ficou surpreso quando, em vez de acompanhar os colegas, Lynne pediu permissão para continuar na água. Ela, que tinha então nove anos de idade, se justificou dizendo que, se continuasse a nadar, não sentiria frio, e foi autorizada a prosseguir com o treino. Naquele dia, a piscina vazia sob o céu escuro proporcionava uma sensação de liberdade nunca antes vivenciada por ela.

Meu mundo estava reduzido ao borrão das minhas braçadas quando uma chuva torrencial começou. As gotas de chuva que atingiam meus lábios tinham um sabor doce e frio, e eu desfrutava das sensações de cada novo momento. A piscina não era mais um retângulo chato, entediante e azul; agora ela era um lugar de constante mudança, um lugar ao qual eu tinha de me ajustar continuamente ou engoliria água em vez de ar. Naquele dia, percebi que a natureza era forte, bonita, dramática e maravilhosa, e estar na água durante a tempestade me fez sentir de alguma forma parte dela, de alguma forma ligada a ela. 2Tradução nossa. Texto original (p. 11): “My world was reduced to the blur of my arms stroking as a cold, driving rain began. The raindrops that hit my lips tasted sweet and cold, and I enjoyed the sensations of every new moment. The pool was no longer a flat, boring, rectangle of blue; it was now a place of constant change, a place that I had to continually adjust to as I swam or I’d get big gulps of water instead of air. That day, I realized that nature was strong, beautiful, dramatic, and wonderful, and being out in the water during that storm made me feel somehow connected to it”.

É verdade que quando estamos submersos somos de tal forma envolvidos pelo dinamismo da água que temos a sensação de sermos circundados pela natureza. Podemos sentir suas partículas tocarem cada fragmento da epiderme. A água, em sua grandeza e dramaticidade, assusta e, ao mesmo tempo, acolhe, protege, enlaça e sustenta.

1.2    Ócio e disciplina

Em agosto de 1978, David Hockney passou uma temporada no atelier de seu velho amigo, Kenneth Tyler, em Nova Iorque. Embora Hockney estivesse determinado, naquela época, a dedicar-se exclusivamente à pintura, Tyler, que era muito insistente, conseguiu convencê-lo a experimentar uma nova técnica em seus trabalhos. Essa técnica, chamada paper pulp, consistia em produzir manualmente o próprio papel e, depois de passá-lo uma primeira vez pela prensa, tingi-lo com uma mistura de celulose e pigmento. Punhados de pasta pigmentada – os paper pulps – eram colocados sobre o papel para tingi-lo e, assim, obter cores mais vibrantes do que seria possível numa pintura convencional. Ao final do processo, os papéis eram envolvidos por duas folhas de feltro e passavam uma última vez pela prensa a fim de mesclar as várias camadas de cor e de remover o excesso de água.

David Hockney, A diver (paper pool 17). Paper pulp s/ papel 183 x 434 cm Fonte: Paper Pools, 1980

No livro Paper Pools, David Hockney narra a temporada com Kenneth Tyler em Nova Iorque, durante a qual os dois amigos almoçavam diariamente em frente à piscina que ficava no quintal da casa. A dinâmica dos reflexos que a luz ia criando na superfície da água conforme as horas passavam foram decisivos para que essa piscina se tornasse objeto dos trabalhos realizados com a nova técnica. No prefácio do livro, Nikos Stangos comenta a escolha de Hockney:

A fascinação de Hockney consistia em usar um meio aquoso para representar um tema aquático, unindo muitos dos seus temas preferidos: o paradoxo de congelar numa imagem estática algo que nunca está parado, a água, a piscina, esse recipiente de natureza fabricado pelo homem, colocado em meio à natureza e refletindo-a, os jogos de luz na água, a figura do mergulhador desmaterializada embaixo d’água (p. 6). 3Tradução nossa. Texto original: “Hockney’s fascination was in using watery medium for the representation of a watery subject, bringing together many of the themes he most loves: the paradox of freezing in a still image what is never still, water, in the swimming pool, this man-made container of nature, set in nature which it reflects, the play of light on water, the dematerialized diver’s figure under water”.

David Hockney trabalhando em Le Plongeur e olhando para A Diver.
Fonte: Paper Pools, 1980
Kenneth Tyler preparando moldes para Midnight Pool ao ar livre. Desenho de David Hockney. Fonte: Paper Pools, 1980.

Hockney observava a maneira como a luz se comportava nas várias horas do dia, fazia polaroides e depois reproduzia essas imagens em um enorme mosaico de várias folhas grandes de papel, todas fabricadas por ele mesmo, Tyler e alguns ajudantes. Não só as Paper Pools, mas também as pinturas de David Hockney exploram a temática das ensolaradas piscinas particulares de casas nos Estados Unidos, e especialmente na Califórnia. Nelas, há uma clara preocupação com a representação dos reflexos da luz sobre a superfície da água. Em entrevista concedida a Fran Morrison em 1980, ele diz que a água, limpa e transparente – e a ideia de desenhá-la – lhe são muito cativantes. “Você pode olhar para ela, através dela, dentro dela, pode vê-la como um volume, como uma superfície. […] Você não pode fazer isso com o chão ou as paredes.” 4Tradução nossa. Áudio original: “You can look on it, through it, into it, see it as volume, see it as surface. I mean, a lot of different things, which of course you can’t do with a floor or a wall”.

No livro, ele conta que seu amigo Ken era uma pessoa cheia de energia, sempre disposta a trabalhar para pôr em prática as ideias que surgiram ao longo das várias semanas intensas que passaram juntos. O trabalho era braçal, já que Hockney escolhera produzir imagens em grandes dimensões, o que envolvia o esforço de fabricar enormes folhas de papel e grandes quantidades de massa de pigmento, além de realizar o processo de secagem com a prensa.

Quando decidiu que queria nadar pelo mar gelado da Antártica, Lynne Cox passou vários meses preparando seu corpo para suportar baixas temperaturas. Ela dormiu com as janelas abertas, vestiu roupas leves durante o inverno e fez uma dieta de alto teor calórico, que aos poucos criou em seu corpo uma grossa camada de gordura capaz de proteger do frio os seus órgãos, ossos e musculatura, como acontece com os pinguins. David Hockney, movido pelas possibilidades de representação do comportamento das luzes sobre a água, trabalhou em suas Paper Pools durante quarenta e cinco dias seguidos, tirando apenas um deles para descansar. Ao explorar uma nova técnica, o artista está tentando compreender os limites de determinado material, assim como um atleta investiga e tenta superar os seus próprios limites físicos. Lynne Cox e David Hockney, cada um a seu modo, puseram-se em movimento com o objetivo de vivenciar e documentar uma experiência estética com a água.

1.3    Equilíbrio e perturbação

Para mim, a ideia de que alguém se proponha a repetir uma atividade, dia após dia, sob condições favoráveis ou adversas, é muito instigante, porque envolve a capacidade de superar a falta de disposição momentânea com o intuito de alcançar um objetivo maior. A maneira como muitos atletas descrevem a constância da prática esportiva tem a ver com a construção de um hábito que de tão enraizado em sua rotina torna-se uma atividade análoga à de comer ou dormir. A prática contínua do exercício com o intuito de levar o corpo ao aprimoramento e refinamento das capacidades físico-motoras tem uma beleza que David Foster Wallace, em seu ensaio sobre o tenista Roger Federer para o New York Times, soube muito bem descrever:

A beleza não é o objetivo dos esportes de competição, mas o esporte de alto nível é um palco privilegiado para a expressão da beleza humana. É a mesma relação existente, em termos gerais, entre coragem e a guerra. A beleza humana sobre a qual falamos aqui é um tipo particular de beleza; podemos chamá-la de beleza cinética. Sua força e seu apelo são universais. Não tem nada a ver com sexo ou com normas culturais. Parece ter a ver, isso sim, com a reconciliação do ser humano com o fato de possuir um corpo. 5Excerto do livro “Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo” publicado pela Companhia das Letras. P. 279, grifo nosso.

Na física, a energia cinética é aquela que um corpo possui devido ao seu movimento.  Para que um corpo se mexa, ele precisa passar por uma condição inicial de energia potencial, correspondente ao instante exato no qual o movimento terá início. Para efeito de ilustração, imaginemos que eu, agora estendida numa canga sob o sol de São Paulo, no terraço do Sesc 24 de Maio, sinta muito calor e decida levantar-me, caminhar até a borda da piscina e preparar-me para mergulhar. Eu inclino levemente o quadril e estendo os braços ao lado da cabeça enquanto você, leitor, tira uma fotografia desse instante. Na imagem capturada, meu corpo está parado, prestes a saltar e qualquer um, ao observá-lo, pode depreender que o instante retratado é imediatamente anterior àquele em que energia potencial acumulada começará a transformar-se em energia cinética. Agora, esqueçamos a fotografia e voltemos o olhar para o meu corpo que ainda se prepara para mergulhar. À medida que eu me movo e, cedendo à força da gravidade, aproximo-me da superfície da água, ganho velocidade e caio na piscina. Com o impacto, a energia cinética é transferida para a água, que formará ondulações e, no ar, deverá transformar-se em energia sonora.

Num mergulho, é difícil determinar de que forma a energia do movimento do corpo se dissipa, porque as leis da hidrodinâmica são caóticas. Uma das formas de a física lidar com isso é por meio da estatística, tentando prever as probabilidades de movimentação das gotículas que saltam da piscina, a formação de ondulações na superfície da água e o formato das ondas sonoras que se dissipam no ar.

Em oposição à anarquia das leis hidrodinâmicas que regem o impacto de um mergulho na água está o equilíbrio. Um corpo está equilibrado quando todas as forças que atuam sobre ele se anulam mutuamente. Caso eu decida, depois do meu mergulho hipotético, permanecer dentro da piscina e boiar em sua superfície, haverá equilíbrio, porque o empuxo da água anula o peso do meu corpo, permitindo que ele flutue.

Agora imaginemos que você, leitor, também tenha tido a ideia de manter uma câmera filmando os movimentos do meu corpo desde o momento que tomei a decisão de caminhar até a piscina para mergulhar e, em seguida, passar alguns minutos boiando na água. No percurso há um equilíbrio inicial – quando meu corpo ainda não está sentindo calor e continua estendido sobre a canga – e um equilíbrio final – quando o empuxo e a densidade do meu corpo permitem que eu flutue na piscina.

Segundo a 1ª Lei de Newton, também conhecida como princípio da inércia, um corpo tende a permanecer em seu estado de movimento, ou repouso, se nenhuma força atuar sobre ele. Uma das características que diferenciam meu corpo do guarda-sol que aparece ao fundo do vídeo que acabou de ser gravado é a minha capacidade de resposta aos estímulos externos: ao sentir calor, procurei a água para me refrescar. Por outro lado, desde que nenhuma força aja sobre o guarda-sol, que está levemente inclinado para a direita e encaixado num orifício do chão, ele continuará estático, por dias, ou semanas.

Gabriela Motta, Nado (2018). Aquarela s/ papel 12 x 20cm

Ao sentir desconforto térmico, meu corpo atirou-se à água gelada. Depois, voltou a deitar-se sob o sol até ficar quente de novo e, uma vez mais, buscar refresco na piscina. Essa dinâmica regida pela necessidade de equilíbrio térmico pode manter-se ativa por várias horas, até que o sol se ponha, a área da piscina seja interditada e eu precise ir embora. Isso me leva a pensar que a própria condição de existência do equilíbrio é justamente que ele seja tanto precedido quanto sucedido por estados de caos e perturbação. John Dewey, no livro Arte como experiência, descreve esse ritmo:

O ser vivo perde e restabelece repetidamente o equilíbrio com o meio circundante. O momento de passagem da perturbação para a harmonia é o de vida mais intensa. Em um mundo acabado, o sono e a vigília não podem ser distinguidos. Em um mundo totalmente perturbado, não seria possível lutar contra as circunstâncias. Em um mundo feito segundo padrões do nosso, momentos de realização pontuam a experiência com intervalos ritmicamente desfrutados (p. 80).

Pode ser que a busca pelo equilíbrio seja, então, aquilo que move o artista a continuar explorando determinada temática até considerá-la esgotada, ou o que leva o atleta a reunir disciplina suficiente para treinar incansavelmente até a conquista de uma nova medalha. Cada um, à sua maneira, tem em vista um objetivo e empreende um esforço até conquistá-lo para, em seguida, recomeçar.

1.4    Passado e futuro

Algumas horas se passaram desde que cheguei à piscina do Sesc e ainda tenho Swimming Studies em minhas mãos. No livro há muitos trechos bastante sensoriais que descrevem, por exemplo, a sensação da água tocando a pele e a forma como o som chega aos ouvidos de quem está submerso durante uma competição. Estou lendo uma passagem particularmente interessante, que estabelece uma paleta de cores relacionadas a memórias olfativas de objetos, pessoas e lugares que faziam parte da rotina de atleta da autora. Várias dessas lembranças envolvem o cheiro do cloro das piscinas: “8. Toalha molhada da equipe: Fortes notas de cloro, notas mais fracas de alho, doca do lago e pão integral. […] 13. Unha: Cloro, batata chips sabor churrasco, luva de lã” (p. 61). 6Tradução nossa. Texto original: “8. Wet team towel: Heavy notes of chlorine, light notes of garlic, lakeside dock, and brown bread. […] 13. Fingernail: Chlorine, barbecue potato chip, wool mitten”.

Páginas 60 e 61 de Swimming Studies, de Leanne Chapton

Penso nas minhas próprias reminiscências sensoriais à borda da piscina: macarrão instantâneo num prato de plástico; perfume de eucalipto; cheiro de jornal; barulho do contato da pele com a boia molhada. Em um dos muitos verões que passei brincando na piscina do apartamento dos meus avós paternos no litoral, meu irmão mais novo estava obcecado pela mitologia grega, que tinha sido seu objeto de estudo durante aquele ano na escola. Ele pulava com força na piscina, jogando muita água para fora, e gritava: “Eu sou Poseidon, o rei dos mares!”.

Poseidon, filho de Cronos e Reia, é normalmente representado com barba e cabelos brancos, segurando um tridente, com o qual é capaz de controlar o movimento das águas do mar e a força das tempestades. Numa outra referência da mitologia relacionada ao mar, Hero, sacerdotisa de Afrodite, mantinha com Leandro uma relação proibida. Hero habitava o continente europeu e, para encontrá-la, Leandro precisava atravessar o então chamado estreito de Helesponto, que separava Ásia e Europa. Com o intuito de ajudá-lo na travessia, Hero acendia uma luz do alto da torre onde morava. Em uma dessas ocasiões, fisicamente esgotado, Leandro acabou se afogando. Desesperada, Hero suicidou-se.

Em 1870, o poeta britânico Lord Byron inaugurou a modalidade esportiva do nado de longa distância ao realizar em uma hora a travessia do mesmo trecho, hoje chamado estreito de Dardanelos. Com essa experiência, ele pretendia vivenciar o mito e comprovar que o feito de Leandro, que consistia em nadar 1.960 metros de extensão em nome do amor, era, de fato, exequível. 

Joseph Mallord William Turner, A partida de Hero e Leandro (antes de 1937). Óleo s/ tela, 146 x 236 cm Fonte: Site da National Gallery

Para Carl Jung, a psique humana seria composta de dois inconscientes. O primeiro deles é o inconsciente pessoal, resultado do acúmulo das experiências particulares de um indivíduo, enquanto o outro é o inconsciente coletivo, composto de imagens universais, inatas e comuns a todos os seres humanos. Quando nadou pelo estreito de Dardanelos, Lord Byron procurava resgatar para a narrativa de sua própria existência, de forma consciente, um mito universal compreendido naquilo que corresponde, dentro da psicologia junguiana, ao inconsciente coletivo. É como se, enquanto indivíduos, construíssemos nossas narrativas pessoais no tempo presente, guiados pelos arquétipos que compõem a coletividade que nos antecede e da qual fazemos parte.

Na minha narrativa pessoal, estou observando algumas crianças que vieram brincar perto do lugar onde estou sentada. Elas fazem muito barulho e espirram água para todos os lados. Fecho o livro para evitar que suas páginas fiquem molhadas e sinto um arrepio quando uma rajada de vento passa pelo meu corpo agora molhado. Olho para o céu azul, está ficando tarde. Levanto-me e observo os prédios ao redor, cujas superfícies envidraçadas começam a refletir a luz alaranjada do sol. Amanhã é segunda-feira – penso enquanto seco o corpo com a toalha – e eu preciso voltar para casa.

Referências   [ + ]

1. Tradução nossa. Texto original da página 354: “My arms and legs were as cold as the sea, but I felt the heat within my head and contained in my torso and I thrilled to it, knowing my body had carried me to places no one else had been in only a bathing suit. I looked down into the water; it was a bright blue-gray and so clear that it appeared as if I were swimming through air. The viscosity of the water was different, too. It was thicker than any I had ever swum in. If felt like I was swimming through gelato”.
2. Tradução nossa. Texto original (p. 11): “My world was reduced to the blur of my arms stroking as a cold, driving rain began. The raindrops that hit my lips tasted sweet and cold, and I enjoyed the sensations of every new moment. The pool was no longer a flat, boring, rectangle of blue; it was now a place of constant change, a place that I had to continually adjust to as I swam or I’d get big gulps of water instead of air. That day, I realized that nature was strong, beautiful, dramatic, and wonderful, and being out in the water during that storm made me feel somehow connected to it”.
3. Tradução nossa. Texto original: “Hockney’s fascination was in using watery medium for the representation of a watery subject, bringing together many of the themes he most loves: the paradox of freezing in a still image what is never still, water, in the swimming pool, this man-made container of nature, set in nature which it reflects, the play of light on water, the dematerialized diver’s figure under water”.
4. Tradução nossa. Áudio original: “You can look on it, through it, into it, see it as volume, see it as surface. I mean, a lot of different things, which of course you can’t do with a floor or a wall”.
5. Excerto do livro “Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo” publicado pela Companhia das Letras. P. 279, grifo nosso.
6. Tradução nossa. Texto original: “8. Wet team towel: Heavy notes of chlorine, light notes of garlic, lakeside dock, and brown bread. […] 13. Fingernail: Chlorine, barbecue potato chip, wool mitten”.

2 Replies to “Dicotomias em meio aquático”

  1. Parece que me acertaram a cabeça com um pedaço de carvão.
    “(…) digo: esta vida está cheia de ocultos caminhos. Se o senhor souber, sabe; não sabendo, não me entenderá.”
    Como é que vim chegar em meio a tanta lindeza?
    Ela era.
    Sou grato por isso.

  2. I love looking at your website. Thanks for your time!

Deixe uma resposta


*