São Paulo – Frankfurt

Existe alguma coisa naquelas turbinas, naquelas instruções de voo sem entonação repetidas em 5 línguas pela voz monocórdica da aeromoça, naquele abrir e fechar de compartimentos superiores: existe alguma coisa de inexpugnável no sono que desperta em mim um avião.

Foi assim no último voo, que me transportou de São Paulo a Frankfurt, com duração de 13 horas. Depois que me acomodei na poltrona 46G, afivelei o cinto de segurança antes mesmo que isso me fosse solicitado, ciente de que a qualquer momento poderia adormecer. Junto à janela, uma senhora cutucava exaustivamente a tela à sua frente e dois adolescentes tentavam explicar-lhe que não, aquele computadorzinho não tinha tecnologia touch e não importava o quanto ela o apertasse, ele não iria responder. “Use o controle remoto”, implorava um deles, apontando para o braço da poltrona onde estava posicionado o aparelho.

Um jovem magricela próximo à entrada dos banheiros vestia roupas esportivas e ajeitava mil vezes os seus 1,40m de pernas sob o banco, constatando, angustiado, em todas essas mil vezes, que nunca encontraria uma posição minimamente confortável durante as próximas horas. Cinco fileiras à frente, uma criança que decidira usar o corredor como pista de cooper tinha desaparecido avião afora, ao que um comissário brasileiro resmungava: “Oh, my God!”.

poltrona
Fecho os olhos e começo a prestar atenção na conversa entre dois rapazes de terno, à esquerda. Brinco de adivinhar o idioma que estão falando. De onde vem esse monte de vogal? Parece tupi…
Puco depois, estou dormindo. Com as chacoalhadas da decolagem, abro os olhos durante um ou dois segundos, mas volto a cochilar. Mais tarde, sou despertada pelo barulho de talheres sendo remexidos por um sorridente funcionário da companhia aérea, cheio de deferências ao entregar aos passageiros as suas respectivas bandejinhas alimentares. Refeição de avião é sagrada. Nada, – nem um sono monstruoso, nem a mais completa falta de apetite – nada é razão suficiente para que eu decline de algo que esteja incluso no preço da passagem.

Depois de devorar meu macarrão ao sugo – e de guardar na bolsa um pãozinho enrolado em guardanapo para a fome da madrugada – reclino a poltrona e adormeço profundamente. Meus sonhos deflagram um subconsciente cosmopolita. Sou chinesa e interajo com um grupo de argentinos, em russo. Estamos num restaurante tunisiano chamado “Nuvens de algodão”, conversando sobre o preço do barril do petróleo e a alta dos charutos cubanos no freeshop: “But do you mean cigars or cigarettes?”. Ao solicitarmos o cardápio, mostramos os passaportes ao garçom. Pesaroso, ele diz que com nossos vistos só teremos direito a massa ou frango. Os pratos chegam alguns minutos depois, envoltos por uma camada de papel alumínio que mantém aquecidas as diminutas porções de comida. Quando acordo, já estão distribuindo o café da manhã.