Manual para visita ao Corcovado

Ultimamente tenho servido de guia turístico a muitos amigos estrangeiros que vêm visitar o Brasil e, só neste ano, subi três vezes e meia ao Cristo Redentor. Na visita feita pela metade, meus acompanhantes ficaram chocados com o tamanho da fila e desistiram de concluir o passeio.
 
Subir até o Corcovado de trem durante a temporada pode ser um pouco laborioso e exige certo know-how com o qual fiquei familiarizada nestes últimos tempos, e que gostaria de transmitir ao leitor. Um visitante bem informado saberá, por exemplo, que a aquisição deste belo simulacro de visita, feito por um profissional indiscutivelmente versado na arte do Photoshop, dispensa até mesmo a compra de um ingresso:

Além das fotomontagens, pequenos Cristos em madeira, adequados à decoração de mesas de canto e similares, estão disponíveis em lojinhas da cidade pelo investimento médio de R$ 15.

Caso o leitor não se contente em adquirir souvenirs e queira levar a cabo a visita, aconselho fazer a reserva dos  bilhetes no dia anterior pela internet e apresentar-se ao guichê no primeiro horário da manhã. Sem uma reserva, é preciso dispor de muita paciência e de uma mochila contendo distrações para a fila do caixa, como livro grosso, de no mínimo 400 páginas (pode ser trilogia), sudoku, ioiô, músicas no celular, além de dicionários diversos para a socialização com gringos ao redor. Caso você tenha um blog, também pode aproveitar a oportunidade para escrever um novo post.  

 
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O passeio com o bondinho é agradável e muito bonito, porém é melhor não criar expectativas em relação à possibilidade de sentar-se ao lado da janela. Quando atingir o topo, as instruções são simples: navegue através do mar humano ali presente esgueirando-se pelas beiradas à procura de alguns centímetros vagos no mirante e, ao visualizar um espaço, dirija-se até ele como se disso dependesse a sua vida. Assim que conquistar um território, procure movimentar-se somente quando necessário – refiro-me a câimbras e formigamentos – até o momento de partir. Pratique contorcionismo se quiser ver partes da paisagem que estiverem localizadas fora do seu campo de visão – jamais cogite deslocar-se.
 
E, agora, um conselho final. Aproveite a presença do Cristo para a prática do autocontrole: a hostilidade dos tiradores de selfie fará com que você deseje intensamente a queda de alguns smartphones morro abaixo. Por isso, não se deixe dominar pelas emoções: quando estiver prestes a golpear a câmera alheia, respire fundo uma, duas, três vezes. Em seguida, faça um rápido exercício de identificação da paisagem e repita mentalmente: ali está a Ponte Rio-Niterói, aqui o Maracanã, lá o Pão de Açúcar. Logo você sentirá os batimentos voltando ao normal e sua vontade de engolir a câmera do vizinho – ou de fazer com que ele mesmo a engula – esvair-se com a brisa carioca.